quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Como Fanny Price


Quando eu tinha 13 anos, eu escorreguei da penúltima prateleira, contada no sentido de baixo pra cima, da pequena biblioteca que havia na casa de minha bisavó, na qual morava.
Era um cômodo pequeno, com 16 prateleiras de madeira, distribuídas em três paredes (4, 8, 4) abarrotadas de livros. Era conhecida como "A Área Verde", o que até hoje ainda não compreendi com exatidão, mas gostava de pensar que era por causa da cor propiciada pelo reflexo do sol no material (algo como vidro) que ficava debaixo das telhas que eram constantemente quebradas pelos gatos vizinhos...
Entre coleções completas de escritores clássicos, enciclopédias e dicionários, havia também livros únicos, receitas de pratos saborosos, romances históricos, livros espíritas e espiritualistas, de autoajuda, poesias e biografias.
Voltando ao início da narrativa, eu escorreguei de lá de cima, não por ser distraída ou mesmo desastrada- tá, você pode dizer que foi por causa desse último estigma, não vou discordar- mas porque toda a minha atenção tinha sido capturada por uma arte belíssima da capa de um livro. Letras feito "monotype cursiva" e um nome bem intrigante: Mansfield Park.
Confesso que, naquela época, eu não sabia muito de inglês, meu inglês era o básico do básico e não sabia muito sobre autores estrangeiros também. Então, eu vi o livro e quis retirá-lo de lá, mas meu equilíbrio sumiu e aí o resultado não foi lá tão bom de se descrever. Digamos apenas que minha queda abriu meu fascinio pela Jane Austen de uma forma exótica, porque eu ainda passei dias pra poder começar a ler o tal livro, o primeiro da Jane que li, tudo por causa dessa queda.
Mas Mansfield Park foi uma leitura mesmo fascinante.
É quase impossível descrever o modo como me apeguei à personagem principal, Fanny Price, de modo que todas as histórias que imaginei, da leitura em diante, sempre tiveram algo da doce Fanny no meio delas.
Talvez meu eu interior, o que os psicanalhistas - desculpe o trocadilho, não resisti- costumam se referir como Id, tenha se identificado de uma forma quase tangível com aquela garotinha desamparada, inteligente.
Fanny Price, ao contrário das outras heroínas da Jane, não é uma heroína aventureira, que atravessa uma jornada rumo a desafios sobrenaturais. Ela quase não sai do seu lugarzinho em Mansfield, sua trajetória é metafórica, seus desafios são sentimentais, seus vilões são mascarados e dissimulados. E com certeza meus desafios foram muito mais psicológicos do que materiais... Mas a personagem sempre foi forte, apesar dos fantasmas de sua mente.
Na verdade, é justamente por enxergar tanta força na Fanny, tanto potencial e bondade que eu verdadeiramente quis me comparar a ela.
O fato é que, mesmo depois de alguns anos e algumas leituras póstumas, Mansfield Park continua sendo o livro que mais gosto da Jane Austen. Orgulho e Preconceito ainda tentou derrubar isso, mas só por causa do Mr. Darcy, com todo seu mistério e intensidade, porém eu nunca me esqueço de como a Fanny Price demonstra resiliência perante os acontecimentos que lhe ocorrem, como sabe suportar pacientemente toda a humilhação e negligência sem que essas coisas lhe transformem por dentro. Permanecendo íntegra e sendo quem ela realmente é.
E é exatamente por isso, por essa fortaleza, que eu cairia novamente mil vezes para a descobrir.
(...)
Obs: Há um filme muito bom sobre "Mansfield Park", chamado em português de "Palácio das Ilusões". Vale muito a pena.







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