quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Carta a um (improvável) leitor




"Pode ser difícil encontrar agulha em palheiro. Mas não descalço."
-Millôr Fernandes-













Hello, stranger!

Inicialmente, gostaria de constar que te chamo de improvável leitor por motivos óbvios. Se, dada a minha dificuldade de me fazer compreender, os motivos não estão claros o suficiente, deixe-me que explique melhor.
Ninguém parece dar conta desse blog e, embora você talvez não queira ser categorizado como um mortal igual a mim (há quem realmente seja superior, acredite), minha invisibilidade permanece em qualquer dos casos...
A bem da verdade, confesso que também não houve uma divulgação deste espaço e o meu mais absoluto desejo era o de que pessoas pudessem se intrigar com o que digo e penso e, movidas pela curiosidade de saber mais sobre mim, chegassem a este lugar que me é tão íntimo.
Contudo, se o que Heráclito de Éfeso disse é realmente verdade- o que acredito fortemente - você já deixou de ser improvável leitor desde a primeira linha. Ou melhor, desde o título deste post, que, admita, achou intrigante. Sim, eu sou presunçosa assim. Ou doida mesmo, que é o que me dizem com mais frequência, depois de lesa e desastrada, logicamente.
Mas, deixando de digressões meio machadianas, vamos ao que efetivamente interessa, que é o motivo de voltar a escrever no blog.
Sabe quando você conhece alguém especial, que vai na contramão de todos os tipos de pessoas com quem já se relacionou? E mais, quando essa pessoa te leva a enxergar como você realmente é? Sim, porque além de minha invisibilidade perante os outros, havia a minha própria invisibilidade, escondida no meu próprio mapa do maroto.
É simplesmente arrebatador quando essas revelações acontecem.
E, cada vez mais, começo a acreditar em Heráclito. Ninguém vive estático, pois a cada dia temos novas experiencias acerca de nós mesmos - ainda mais quando encontramos pessoas especiais que nos abrem mil possibilidades apenas com uma palavra, um olhar, um gesto de aceitação, entendimento, admiração.
Somos rios, não apenas o solo por onde as águas correm, mas toda a extensão. Às vezes coberta de galhos e folhas, às vezes águas límpidas, transparentes e noutras, barrentas e lodosas, meandros e estuários...
A pergunta é: o que faz de nós rios caudalosos, nutridores e belos? 
Eu gostava de pensar que nunca fui uma pessoa verdadeiramente comum. Isto é, até encontrar quem abrisse minha mente para o que é realmente ser diferente.
Nesses tantos anos de vida, eu sempre travei batalhas imensas com as decepções - porque eu sempre esperei mais das pessoas, da vida e o que me fazia mais sofrer era pensar na minha coleção quase infinita de nuncas.
Eu nunca tive muitos amigos. Eu nunca fui alvo de festas surpresas. Nunca ganhei cartinha de amizade, dessas que as meninas colocavam adesivos bonitinhos e testavam as cores de suas canetas coloridas que vinham com fragrâncias. Nunca recebi flores. Nunca fizeram músicas só pra mim (um desejo secreto, imaginava ter um namorado cantor). Sabe aquele filme, "Never been kissed"? Pois é, você poderia dizer que a personagem da Drew Barrymore se parece comigo. Sério. Nunca, nunca, nunca... Sempre vendo as coisas por esse ângulo. 
Mas aí, num dia qualquer, andando descalça num palheiro, encontrei uma agulha.
Eu não procurava, nem sequer esperava que encontrasse a agulha que costuraria meus buracos da alma e me mostraria tantas e tantas coisas novas. E bonitas. E incríveis.
Mas é assim mesmo que as coisas acontecem; as mais inusitadas e imprevisíveis são as melhores.
Não sei se são as que permanecem, porque ainda não descobri como prever o futuro.
Mas, mesmo que as águas mudem, eu já me sinto absolutamente feliz e grata por vislumbrar tantas possibilidades de crescimento interior - proporcionadas pelo reparo cuidadoso que a agulha generosamente me fez. 
Ah, e sobre como os pensamentos mudaram?
Isso é história pra outro post.

      




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