terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Grey, cinzas de édipo.

50 Tons de Cinza. Meu Deus, estou mesmo entrando na zona cinzenta das modinhas literárias sexuais?
Bem, eu comecei a ler esta série com uma perspectiva de encontrar algo altamente esdrúxulo e predominantemente machista, não vou negar. Na verdade, queria saber o porquê de tantos comentários, artigos, entrevistas, produtos, boom de "sex shops"..Enfim, queria apenas saber se era válida a leitura ou, mesmo não sendo assim, se era pelo menos um divertido e leve passatempo.
Num engano brutal, meu inconsciente acabou descobrindo que "50 Tons de Cinza" é algo impressionante, uma faca de dois gumes. Explico-me. 
Ao mesmo tempo em que o leitor- que não esteja muito atento- pode apenas achar o livro vulgar e sem atrativos, o leitor mais crítico e imparcial, que tenha bebido da fenomenologia de Husserl, ou que tenha nadado contra a maré escura de falsa consciência moral produzida pelo superego (e por essa óptica alguns me considerarão quase uma psicopata...rsrs), perceberá que o livro possui vasto conteúdo psicoanalítico e de uma profundidade de sentimentos gritante.
Já, outros tipos de leitores poderão brincar com personagens-alegorias da sociedade...Por exemplo, poderemos fazer uma ponte com histórias infantis como Chapeuzinho Vermelho. Por que não considerar que a Anastácia Steele seja a Chapeuzinho Vermelho e o Christian Grey o Lobo Mau? O vermelho do capuz é a cor da paixão, do sangue (pancadas?), da maçã (proibida?), do semáforo (senha de segurança?)...E o Cinquenta, sendo um lobo, lembra-me um filme, "Sobre Meninos e Lobos", e o ponto nisso tudo é que eu me vi tentando desvendar todos os mistérios de Grey, querendo entender mesmo a origem de seus fetiches, de não querer ser tocado, e de seu modo grosseiro e controlador, assim como Dave Boyle teve seus traumas...
Poderíamos ir mais além. Poderíamos simplesmente considerar Ana como a alegoria da sociedade hodierna, volúvel, sem muitas perspectivas, em contraste com Grey-Capitalismo, numa constante relação dualista de amor e ódio luta por controle. A sociedade que goza com os abismos fálicos doentios do capital.  Mas acho que isso é muito já.
Voltemos, então, para o que eu queria realmente dizer com isso tudo, que acabei descobrindo que o personagem do ricaço volúvel, descontínuo, inquietante, controlador, é Édipo às avessas. São as cinzas do Édipo essencialmente freudiano- e que, diga-se de passagem, nunca sofreu o seu complexo. O Christian edipiano possui o complexo e nunca o resolveu. O mundo foi o que exerceu a maternidade para com ele (Não a suposta Elena-Jocasta, que de Helena seja a Tróia, mas de casta nada tem), o padrasto nunca refletiu a ordem cultural. Talvez, a obsessão por controle tenha sido o escape para sua castração, pois de outra forma isso não viria. E o trauma pelo toque? A lembrança do que ele queria que a mãe biológica tivesse sido, ou mais, a lembrança do Cosmos pungente, o tânatos, a saudade da harmonia.
É, eu acho que posso compreender melhor tanto sucesso.
Ou talvez, seja apenas minha vontade enorme de não ter perdido meu tempo com a leitura.
De qualquer forma, as partes eróticas foram hilárias para mim e quero assistir no cinema a adaptação, Oui. Porque, se perdemos tempo, que essa perda seja em 50 vezes. Com direito a sorvete de baunilha, haha.