domingo, 12 de junho de 2011

A Elegância da Justiça




Sentada em uma das mesas, na Rua do Lazer, após uma semana estressante (ressaltem-se noites mal dormidas e com muitas dívidas de sono), comecei a divagar por entre os mundos do Direito, Filosofia e Literatura. O mundo mágico tripartite que sempre acaba me dizendo que estou atrasada para entrar num certo subsolo.

Pois bem, neste dia, quis o maestro do imaginário me levar aos conselhos fabulosos da Sra. Michel. Não realmente conselhos, mas um diálogo significamente repleto de pontos e vírgulas machadianos. E com a participação ilustre da menina de ouro, Paloma Josse.

Nosso diálogo:

(Senhora Michel) - Boa tarde, menina inteligente! A que devo a honra desta visita? Oh, desculpe Leon, hoje ele está mal-humorado porque me viu ficar presa a um pensamento escolástico.

(Eu)- Boa tarde, Renée (Ela insistiu outro dia para que eu não utilizasse de tanto formalismo). Não se preocupe, seu gato não tem muita simpatia por mim, de qualquer forma. Mas...Se posso perguntar, qual teria sido o pensamento que pôs a ferros seu raciocínio?

(S.M)- Não consigo entender a fenomenologia de uma simples receita de bolo. Nem Husserl, Kant ou Descartes me foram úteis.

Entra, agora, no quartinho da zeladora, de supetão, Paloma:

- Aqui está a receita que eu furtei de Colombe, Senhora Michel. Minha irmã nem desconfiou... Olá, Angélica! Outra vez dormindo no ônibus?? (É, moro tão longe da faculdade que geralmente durmo no trajeto pra casa)

- Hoje não, Paloma. Ao que tudo indica, parece que estou dormindo numa das mesas na Rua do Lazer. (Ah, que a metáfora do sonho-realidade seja louvada! rsrs) Olha, eu vim aqui porque preciso de alguns conselhos. Estou catando tudo o que encontro sobre Justiça, quero fazer uma análise atual do seu conceito...

A Senhora Michel levantou da poltrona em que estava e foi servir o chá.

- Ah, a Justiça... O que dizer? Eu tenho meu próprio Anel de Giges, minhas desculpas inúteis que sustentam minha miserável situação.

(Eu)- Vamos lá, Renée, a senhora deve ter algo a mais a me dizer...Ando tão confusa!

(Paloma)- Olha, Angélica, se quer saber minha opinião... Bem, meu conceito de Justiça é baseado fortemente em Platão. Dar a cada um aquilo que lhe é próprio, trabalhar dentro de suas aptidões. É o conceito antropológico- a busca pelo Estado justo e perfeito... Na verdade, tenho minhas próprias reservas a esse conceito. Não é à toa que eu vivo procurando algum sentido para esta vida ingrata; mesmo se buscarmos nossas próprias aptidões, poderemos ainda assim sermos injustos da pior maneira possível. A injustiça para consigo próprio é pior do que guardar rancor, pois o rancor a gente pode substituir por qualquer outro sentimento. E não há substituição para aqueles que acreditam fortemente que são justos quando não o são, na realidade.

(S.M)- Mas Platão anda muito pelo comportamento humano. Prefiro acreditar em Kelsen, quando ele diz que a unanimidade sobre um juízo de valor existente entre muitos indivíduos não pressupõe a veracidade desse juízo. Não posso dizer que é justo o comportamento humano que é acordado na sociedade. Justiça é algo maior e subjetivo. E elegante, diga-se de passagem. Está no íntimo dos seres humanos, talvez até venha do mundo das idéias que o próprio Platão, ao meu ver, renegou ao esquecimento quando pensou em Justiça.

Depois que a Sra. Michel falou, todas bebemos nosso chá em silêncio, sublimando o tempo.

Então, resolvi quebrar o silêncio:

-É, Kelsen. Eu acho que prefiro o conceito de Justiça de Marx e Heller. "A cada um a mesma coisa. A cada um de acordo com seus méritos. A cada um de acordo com seu trabalho. A cada um de acordo com suas necessidades. A cada um de acordo com sua posição. A cada um de acordo com seu direito legal". Ai, estou com a cabeça fervilhando agora. Acho que está na hora de acordar... Obrigada pelos breves esclarecimentos, Renée e Paloma!

(S.M) - Até breve, querida. Na próxima, espero que a Rue de Grenelle não esteja tão barulhenta como está agora sua cabeça. Não gostaria de levar um pouco de chá para sublimar um pouco mais seus estudos? Algo me diz que sua ansiedade está lhe matando.

(Eu)- Ok, acho que vou aceitar.

(Paloma)- Adeus, amiga. Espero realmente ter ajudado...

(Eu)- Adeus, Paloma. Cuidado com seus pensamentos, sua vida não é ingrata. Ah, e não descuide da Sra. Michel...

Então, as duas pérolas francesas, raridades mesmo, sorriram para mim e eu fui ao encontro do maestro do imaginário pedir para me trazer de volta aos acordes do quase réquiem que é minha vida.