sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Nota curta de hoje II: sobre a última gota de saudade


Quando a última gota de saudade caiu do céu e molhou minha fronte, tudo parou.
Não existia mais som, movimento, ar. Somente um vazio a palpitar dentro do peito, uma surdez agonizante a ecoar...Procurando por algo que não se sabe, não se conhece mais.
Onde está o que nos liga? Por que sumiu tudo?
Quando a última gota de saudade caiu do céu, não molhou nada, pois não havia mais nada pra molhar.
 ....
 Estranho, eu sei.
 Stranger,
 Eu sei.
   

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Long distance to call


Estou gritando em silêncio.
E vou enrouquecendo a cada dia que passa sem vislumbrar a luz.
A distância tomou conta do espaço comum- e eu não digo a distância de palavras, mas tenho certeza de que você, leitor, sabe que palavras podem não conter muito significado.
A velocidade do que aconteceu foi tão grande e tudo tão intenso que eu ainda não consigo visualizar a dimensão do estrago e nem o que de fato significou tudo.
Porém posso dizer: é muito difícil dobrar a esquina do afeto quando ainda há palavras presas na garganta ou quando a gente não quer realmente deixar-se partir. Ou por causa de uma promessa de que nunca faria isso por conta própria- "só vou se você quiser que eu vá".
Ainda acredito no poder dessa promessa, por isso continuo no mesmo lugar, ou presa ao passado.
Eu sei que nem sempre os erros são fontes de sabedoria, principalmente aqueles que são repetidos em demasia; mas eu também sei que se é possível escolher outro caminho que não o da distância imposta.
Talvez- e apenas talvez - essa distância compulsória revestida de gotas de meia presença seja o resultado de se achar não mais compatível, que naturalmente não se existe mais afinidade. E pode até ser...
Contudo, o triste é pensar que isso ainda existe- por ainda existir um bem querer em alta conta -, mas que eu não posso escolher o que já foi decididamente escolhido por mim- e muito bem reforçado, devo dizer. Isso dói - é como viver o tempo todo com falta de ar.
Acho que isso é que é saudade. Saudade de compartilhar momentos, de ser o depósito da confiança de alguém, de estar no círculo de convivência, de falar pelos cotovelos sobre tudo e todos os assuntos que importam a nossos mundos, de ajudar em planos quase surreais e me jogar pra tentar cumprir...de tudo in and between strangers worlds.
Impossível refazer todo aquele trabalho de construção de confiança e demonstração de importância, demandou muito tempo, árduo esforço (mas tudo substancialmente prazeroso a seu modo, que se diga e grite e ecoe!)...Ah, como sou desastrada! Trabalhei tanto, tanto, pra num impulso botar tudo a perder...
Tenho dessas coisas e nunca escondi de ninguém. Minhas falhas de insegurança, baixa autoestima, facilidade pra desistir das coisas que demandam muito esforço. Prometi mudar, é fato, e vivo numa luta interna muito intensa para alcançar essa meta. Por mim e pelos meus.
Ainda assim, eu sinto que a afinidade está presente ainda aqui, a especialidade, algo de muito bom que reverbera em cada vestígio de presença, em cada ato que se enxerga, cada contato mesmo ínfimo e curto. E não faz mal pensar por este lado não- porque é como bálsamo no fim da tormenta, um fôlego debaixo das águas turvas e das pressões, o ar que me falta a cada vez que percebo a ausência.
Uma mensagem velada de que há uma saída, que não é de retorno, mas de caminho que segue. 
E preciso seguir.



sábado, 2 de setembro de 2017

Nota curta de hoje


Sentindo-me como a Toni Williams.






(...)



sábado, 29 de julho de 2017

Sonhos meus, má fortuna, querer pungente (ou olá, Camões)


Sonhos meus, má fortuna, querer pungente
Em minha vida se transformaram;
Os sonhos e a fortuna para trás ficaram
Restando de fato esse querer, somente

Nada do que quis eu fiz, dor presente
Que já não dói tanto quanto em anos passados
Que os sonhos ensinaram, alados
A quedar-me com o querer, contente

Aprendi errando, insistindo em planos
Dei causa a que o tempo castigasse
As minhas insaciáveis e equivocadas esperanças

De tristeza não tive prantos
Oh! Se o tempo me fartasse
Que fizesse que me contentasse
com o pouco resultado das andanças




quarta-feira, 19 de abril de 2017

Quando quiser fechar os olhos...


...lembra que isso faz a imagem falar no silêncio.
Que as lembranças seguirão onde teus pés quiserem te levar e não será o fim de nada.
Porque não existe a morte, para os que creem.
Lembra da tua família, teus amigos, e aqueles que estão contigo em todos os momentos.
Lembra dos passeios pela relva escura, o orvalho da manhã acalmando as incertezas da noite e pungentemente cantando: há sempre um amanhã!
Dos dias chuvosos, que conseguem lavar até a alma e matar a sede dos animais. 
Lembra daquele dia de sol, o barulho das ondas trazendo a certeza de que há sempre companhia, a luz do sol incrivelmente banhando tua fronte e te fazendo enxergar um pouco de Deus.
Deus, teu pai amoroso, que te guia e te diz constantemente: eu te vejo e te amo, filho!
Ah, se tu soubesses o quão maravilhoso é enxergar esse amor incondicional...
O quão grande e poderoso é o Pai.
Ah, se tu soubesses enxergar que a solidão é uma escolha vazia, porque Ele está sempre contigo, mesmo que não consigas compreender, é Ele que te faz vivo- pra vir aqui e crescer.
Ah se tu soubesses o quão libertador é ter a certeza de que, em meio à mutabilidade das coisas, há algo tão certo, seguro e estático: o amor divino.
Quando quiser fechar os olhos, lembra desse texto e de mim; que também te amo- mesmo que não te conheça - mais pelo fato de querer, do mais profundo do meu eu interior, sorrindo e chorando, que um irmão sinta todo o esplendor que é viver.
Quando quiser fechar os olhos, lembra que só tu és o responsável pelas tuas escolhas, mas que elas podem te levar a conhecer maravilhas e à transformação do ser pela fé.
Acredite, a vida é bela.
Só é preciso saber enxergar.


                   




segunda-feira, 10 de abril de 2017

Angústia temporal





Passar o tempo, jamais, 
será a contento:
desejamos cada vez mais
esperar cada vez menos

E se o vazio insistir em nos acompanhar,
cheias serão as horas
desesperadamente a contar

Entrega-se o amor pelo meio
correndo como ondas no mar
ao relógio sem ponteiro
do tempo a naufragar

Que tempo, que horas ou amor
ainda haveremos de gastar,
para saber o quão amarga
é essa dor de esperar?





domingo, 2 de abril de 2017

Verdes são os jardins (ode a Camões)

Verdes são os jardins,
Mistura de cor da terra tem :
Assim são as íris
Do meu excêntrico bem.

Jardins, que te fecham
Em labirintos sem brechas;
Cupidos, com invisíveis flechas
Vossos mistérios ensejam,
Para encantar qualquer alma
Eu com eles hei de encher meu coração,
Perder toda minha calma.

As belas que nele passeiam
Em tão displicente contentamento,
Vosso pensamento
Não no compreendereis;
Isso que admireis
Não são jardins, não;
É o sentido dos olhos
Do meu coração.